Willian Morris O Trabalho e a Máquina (em A Fábrica como ela poderia ser, 1884)
Quanto ao trabalho, ele será, em primeiro lugar, útil e, portanto, digno e honrado; pois não haverá a tentação de fabricar apenas brinquedos inúteis, já que não teremos mais homens quebrando a cabeça para descobrir novas formas de gastar dinheiro supérfluo e, conseqüentemente, não teremos também os “organizadores da produção” qie, pensando apenas no lucro, prestam-se a toda a espécie de tolice, desperdiçando sua inteligência e energia a imaginar ardis para ganhar dinheiro sob a forma de quinquilharias que eles próprios desprezam. Ninguém produzirá artigos de qualidade inferior; não haverá uma população constituída por milhares de pessoas pobres, criando um mercado para artigos que ninguém desejaria comprar, se não fosse obrigado a fazê-lo; todos disporão de meios para comprar artigos de primeira qualidade e saberão rejeitartudo aquilo que não for realmente excelente; produtos grosseiros e de baixa qualidade continuarão a ser fabricados para serem usados por um período limitado de tempo, mas proclamarão abertamente sua inferioridade; não haverá falsificações.
Além do mais, as melhores e mais engenhosas máquinas serão utilizadas sempre que necessário, mas serão utilizadas apenas para facilitar o trabalho do homem; e na verdade, nem poderia ser diferente, num sistema de trabalho tão organizado como o que estamos imaginando…
Ora, tendo sido eliminada a fabricação de bens inúteis, sejam eles os nocivos artigos de luxo destinados aos muito ricos ou as vergonhosas imitações para os pobres, e estando nós ainda de posse das máquinas que eram antes usadas com o único objetivo de extorquir lucros, mas que agora passaram a ser empregadas exclusivamente para tornar mais fácil o trabalho humano, segue-se que cada operário poderá trabalhar menos; ainda mais porque até lá teremos eliminado todos os indivíduos que não trabalham e mais aqueles que apenas fingem trabalhar, de modo que cada membro da nossa fábrica terá sua jornada de trabalho bastante reduzida. Para sermos exatos, digamos que cada operário deverá trabalhar apenas quatro horas por dia.
Depois, poderemos admitir que será lícito ao artista – isto é, a todo aquele que exerce um tipo de atividade agradável e nao servil – pretender que em nenhuma fábrica todo o seu período de trabalho – até mesmo as quatro horas obrigatórias – se limite apenas à tarefa de controlar as máquinas; fica portanto assegurado que pelo menus algumas formas de atividade – e aqui me refiro àquele trabalho necessário e na verdade compulsório – serão agradáveis; o controle das máquinas não exigirá um período de aprendizado demasiado longo e mais: em nenhum caso será permitido que o operário permaneça durante todo o seu período de trabalho – por menor que este possa ser, como já vimos anteriormente – a controlar o funcionamento de uma determinada máquina; na nossa fábrica, o trabalho realmente estimulante, aquele que pode se constituir por so só uma fonte de prazer será uma forma de arte. Assim, sob um tal sistema, o trabalho deixará de ser uma forma de escravidão, pois todas as atividades que puderem ser consideradas opressivas e incômodas serão realizadas por turnos e distribuídas de tal forma que deixarão de se constituir num peso, transformando-se até numa espécie de descanso entre uma e outra atividade mais estimulante ou artística.